sexta-feira, 9 de abril de 2010

do livro A Vida dos Animais - J. M. Coetzee

"Quem diz que a vida importa menos para os animais do que para nós nunca segurou nas mãos um animal que luta pela vida. O ser inteiro do animal se lança nessa luta, sem nenhuma reserva. Quando o senhor diz que falta a essa luta uma dimensão de horror intelectual ou imaginativo, eu concordo. Não faz parte do modo de ser do animal experimentar horrores intelectuais: todo o seu ser está na carne viva.
"Se não o convenci foi porque faltaram às minhas palavras, nesta ocasião, o poder de despertar no senhor a inteireza, a natureza não abstrata e não intelectual do ser animal. É por isso que o incito a ler os poetas que devolvem à linguagem o ser vivo, palpitante; e se os poetas não o comovem, sugiro que caminhe lado a lado com o animal que está sendo empurrado pela rampa na direção do seu carrasco.
"O senhor diz que a morte não importa para um animal porque o animal não entende a morte. Isso me lembra um dos filósofos acadêmicos que li para preparar minha palestra de ontem. Foi uma experiência deprimente. Despertou em mim uma reação bastante swiftiana. Se isso é o melhor que a filosofia humana pode oferecer, eu disse a mim mesma, eu preferia ir viver entre cavalos.
"É possivel, rigorosamente falando, perguntava o filósofo, dizer que o bezerro sente falta da mãe? Será que o bezerro pode se dar conta do significado da relação com a mãe, do significado da ausência materna?
"Um bezerro que não domina os conceitos de presença e ausência, do eu e do outro - assim prossegue na sua argumentação - não poder se dizer, rigorosamente falando, que sinta falta de nada. Rigorosamente falando, para sentir falta de alguma coisa seria preciso primeiro frequentar um curso de filosofia. Que tipo de filosofia é essa? Joguem isso fora, eu digo. Que falta fazem suas distinções insignificantes?
"Para mim, um filósofo que diz que a distinção entre humanos e não-humanos depende de você ter a pele branca ou preta, e um filósofo que diz que a distinção entre humanos e não-humanos depende de você saber ou não a diferença entre sujeito e predicado, são muito semelhantes entre si.
"Em geral sou cautelosa quando se trata de excluir alguém. Eu soube de um importante filósofo que simplesmente afirma não estar preparado para filosofar sobre animais com gente que come carne. Não sei se chegaria a esse ponto - francamente não tenho essa coragem - , mas devo confessar que não faria a menor questão de conhecer o cavalheiro cujo livro venho citando. Especificamente, não faria nenhuma questão de me sentar à mesa com ele."
J. M. Coetzee, A Vida dos Animais, tradução: José Rubens Siqueira, Companhia das Letras, 2009, São Paulo, p.78-79

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