Nunca faltaram vozes de denúncia desse caráter cruel de nossa sociedade. Neste mesmo Senado, seja na era imperial, seja na republicana, muitas vozes de denúncia se alçaram. Em vão. Com pequenas alterações o Brasil atravessou os séculos sempre igual em seu caráter de moinho de gastar gentes.
A meu juízo é tempo já de que esse tema seja retomado em nossa Casa. O Senado é, para sua pena e para sua glória, a encarnação mais perfeita das classes dominantes brasileiras. Aqui temos uma representação melhor delas do que qualquer outra instituição. Tanto do patriciado político que alcança o poder pelo desempenho de cargos, como do patronato empresarial que o alça pelo exercício da atividade econômica.
A nós, portanto, elite da elite, nos cabe a responsabilidade de nos perguntar que culpa temos, enquanto classe dominante, no sacrifício e no sofrimento do povo brasileiro. Somos inocentes? Quem, letrado, não tem culpa neste país de analfabetos? Quem, rico, está isento de responsabilidades neste país da miséria? Quem , saciado e farto, é inocente neste nosso país da fome? Somos todos culpados.
Nossos maiores, primeiro, nós próprios, depois, urdimos a teia inconsútil que é a rede em quem nosso povo cresce constrangido e deformado. Em nossa sociedade, se as relações interraciais se dão com certa fluidez - apesar do preconceito racial que aqui impera - as relações interclassistas, ao contrário, são infranqueáveis em sua dureza cruel. A característica mais nítida da sociedade brasileira é a desigualdade social que se expressa no altíssimo grau de irresponsabilidade social das elites e na distância que separa os ricos dos pobres, com imensa barreira de indiferença dos poderosos e de pavor dos oprimidos.
Nada do que interessa vitalmente ao povo preocupa, de fato, a elite brasileira.
A quantidade e a qualidade da alimentação popular não podia ser mais escassa e pior. O doloroso é que não se deve, no Brasil, a nenhum descalabro climático ou outro, como ocorre mundo afora; deve-se tão-somente ao modo de organização da sociedade e da economia.
A qualidade de nossas escolas a que o povo tem acesso é tão ruim que, como já disse, elas produzem de fato mais analfabetos que alfabetizados.
Os serviços de saúde de que a população dispõe são tão precários que epidemias e doenças vencidas no passado voltam a grassar, como ocorre com a tuberculose, a lepra, a malária e inumeráveis outras.
A solução brasileira para moradia popular, na realidade das coisas, é a favela ou o mocambo. Não conseguimos multiplicar nem mesmo essas precaríssimas casinhas de marimbondo dos bancos da habitação e das caixas econômicas.
Regido pelas leis de mercado - tão louvadas ultimamente pelos irresponsáveis - prosseguimos tranquliamente produzindo soja de exportação - o que não seria ruim em si - e álcool motor - o que também se justificaria se isso se fizesse sem prejuízo da produção de feijão, de milho e da mandioca que o povo quer comer.
Nossa elite, bem nutrida, olha e dorme tranquila. Não é com ela.
Desafortunadamente, não é só a elite que revela essa indiferença fria ou disfarçada. Ela é a hedionda herança comum de séculos de escravismo, enormemente agravada pela ditadura militar que levou a extremos jamais vistos a distância entre ricos e pobres.
Onde está a intelectualidade iracunda que se faça a voz desse povo famélico? Onde estão as militâncias políticas que armem os brasileiros de uma consciência crítica esclarecida sobre os nossos problemas e, deliberada a passar para trás tantos séculos de padecimento?
Frente ao silêncio gritante dessas vozes da indignação, o que prevalesce é o entorpecimento, induzido pela mídia. É o pendor quase irresistível de tantos subintelectuais de culpar os negros pelo atraso em que estão atolados; de culpar os pobres pela sua miséria; de culpar a criança do povo por seu fracasso na escola; a atribuir a fome à previdência e à ignorância da população; a acusar os enfermos de culpados de seus males por falta de higiene ou negligência.
A triste verdade, entretanto, é que vivemos em estado de calamidade, indiferentes a ela porque a fome, o desemprego e a enfermidade não atingem os grupos privilegiados. O sequestro de um rapaz rico mobiliza mais os meios de comunicação e o Parlamento do que o assassinato de mil crianças, o saqueio da Amazônia, ou o suicídio dos índios. E ninguém se escandaliza, nem se quer se comove com esses dramas.
A imprensa só protesta mornamente e o faz quando ecoa o que se divulga lá fora. Parece haver-se rompido o próprio nervo ético da nossa imprensa, que nos deu, no passado, tantos jornalistas cheios de indignação em campanhas memoráveisde denúncia de toda sorte de iniquidade. Hoje, quem determina o que se divulga e com que calor se divulga qualquer coisa não são os jornalistas, é o caixa, a gerência dos órgãos de comunicação. E esta só está atenta às razões do lucro.
O que foi feito para pôr cobro a essa situação de calamidade? Na relaidade dos fatos, nada foi feito. As vozes e o poderio dos que defendem os interesses do privatismo e as razões do lucro sobrepujam o clamor pelo atendimento das necessidades mais elementares do povo brasileiro.
Darcy Ribeiro, Utopia Brasil - Editora Hedra, 2008, São Paulo, in Primeira fala ao Senado, p.88
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